POEMS BY HELENA MADALENA

2021

Vivo vestida com roupas de quem já morreu,

com orgulho, morro nua, sem mortalha,

esperando que quem permaneça 

faça o mesmo, com orgulho.

A puta do cobrador

vem a emel do amor 

o caralho do torpor 

não sabes onde pôr

Baluarte 

os gatos têm remelas por tirar

as flores estão por regar 

o girassol no lixo 

e o meu coração também 

a loiça por lavar 

a roupa por estender 

os trabalhos para entregar 

e eu a esmorecer.

Não é por falta de água,

é por falta de crença

nos mais comuns mortais,

dói-me a cabeça 

e as obras infindáveis 

do prédio ao lado, não ajudam.

Insofismável 

Lisboa, cidade 

em que em cada esquina 

há uma imobiliária sinistra,

Mas em que não se encontra habitação, 

digna, Lisboa

cidade habitada por imobiliárias.

No medo mais veemente,

o da velhice sem dignidade,

andamos no rol da

preocupação e do feijão.

o que mais me incomoda

nesta realidade de máscaras

é o não ver o rosto 

e quem me transporta,

o anonimato está em voga.

Laranjas em grego são maçãs de ouro

Escrevi um poema no teu caderno

a cadela mais nova matou a galinha 

mais velha do monte

o meu irmão teve um surto psicótico

o eletricista já não vem segunda-feira

porque não chegamos a tempo

dia 20 já não rodamos, ensaiamos 

para a rodagem que é adiada para julho

a minha avó passa o próximo fim de semana, 

comigo, em Lisboa.

Estou a tentar fazer os trabalhos,

mas não consigo.

Epistemologia

adormeço nas telenovelas

uma espécie de sonho erótico

difícil e agradável

reflexo da realidade 

submeto um trabalho à pressão.

Na aula seguinte, jingles e

slogans em inglês, para inglês ver. 

Como uma sopa. 

Saio de casa com esperança 

de ver um cão que possa 

assediar, não acontece,

vou trabalhar. Limpo 

com o afinco possível 

enquanto oiço 

suo e canto.

Depois de me decidir a dar

os parabéns ao ex namorado,

que nem há um ano o é, 

passo a pé junto da

sua casa, onde apanho 

o autocarro para Xabregas.

Saio na paragem,

depois de uma viagem

preocupada, sem razão 

de o ser,

lá vou eu para mais duas horas de

exclusão de pares.

Forçosamente orgânica.

Venho-me sempre embora 

com um vazio de quem

fica aquém de quem se quer ser.

Volto de autocarro, 

a parte mais satisfatória do dia, 

uma deambulação 

em torno do Tejo pelo 

crepúsculo.

Afinal o fim é o mais lindo, só 

é preciso conseguir ver.

A única coisa que não termina 

é o fim. 

levamos sempre o fim connosco, 

como ruínas de um prédio que 

nos acompanha. 

Tenho saudades tuas. Saudades do impossível. 

Mas saudades à mesma.

Sortilégio de sacrilégio

Na minha cabeça 

putas e vinho tinto 

na minha cabeça 

um vestido que se usa há anos

apesar do corpo que o habita 

ser sempre outro 

na minha cabeça 

um autocarro de circulação infinita 

que só leva quem quer ser levado 

na minha cabeça 

cinzeiros ao sol 

e orgasmos tristes.

Sofomania

Esta manhã, chorei a ler duas linhas

de um poema da Cláudia R. Sampaio.

Estou fodida com esta formadora de emergência.

Condescendente até ao tutano 

ossobuco de classe média altíssima 

senhora, sua excelência 

Maria Paula Teixeira de Queiroz de Barros Pinto.

2020

Namoro 2020 

Elas 

vamos comer moelas? 

Eles

(economistas da emoção)

vou aplicar a técnica (in) falível da oferta limitada 

Elas 

caem que nem o Tio Patinhas 

homens sem preocupação,

em ter espaço para o coração.

Poemas existenciais das viagens do 46

A pessoa que queria ser,

a pessoa que sou,

ninguém nos precavém

para o auto baloiço.

Oscilo, 

e como as minhas partes mortas.

2019

Reflexos involuntários para massas diluídas

Será que é imperceptível, 

mas que reside, para lá da ténue

camada da convenção social, 

uma dificuldade em lidar com janeiros?

Todos os anos

Regalam-se com o desprendimento.

Dizem ser charme, eu digo,

ser consciente.

Sempre com o triste em riste 

o condão das situações tensas 

(ou de tensão autoinfligida) 

É tudo demasiado neurótico 

(o mais provável é que o seja eu)

Para que algo não subjetivo 

seja palpável.

Recusa de mim mesma

repudio o torpor do mar abjeto

Gente à procura de algo

sem saber o quê.

temo que a única ligação materno-suportável 

seja quando a Dª Ermelinda me faz a 

depilação.

 A nossa existência é um cancro na barriga de outro ser.

Dentro de um autocarro, em pé,

é-se equilibrista.

Nada sei, a não ser que

historicamente é a melhor 

altura para padecer dos

males que mais me afligem,

cáries e curiosidade.

Queda de produtividade pós-almoço, 

os espanhóis são meninos 

para a reconhecer.

Pode não parecer, mas nos dias que corro,

requer sempre coragem, para elevar a sanidade

acima do poder de compra.

Diz-me uma colega de trabalho

que tem medo da rejeição,

eu o que mais temo

é que a simulação seja forçosamente 

tão enfastiante quanto decepcionante,

paixão simulada, o vácuo angustiante.

Porquê deixar todas as possíveis flores de uma vida, para a morte?

Com o passar dos anos

os aniversário são mais

divertidos para quem

congratula, do que para quem os celebra.

estou com o período

e todos me dão os parabéns. 

vou levar as prolfaças 

como sendo por ser mulher.

Não demente, dormente

e a sair com um gingão

cujos cães viajam mais de carro 

do que eu.

Não lhe dei um tostão,

aperto de mão, 

dei-lhe do que bebemos, 

dei-lhe um safanão instigante.

Os senhores da papelaria,

sempre tão papeleiros.

Bom dia 

Bom dia, como vai?

Bem, obrigado. 

Tanta papelada.

Turno das oito da manhã, socorrista do turista.

Tinha de ser sempre verão,

tinha de ter educação,

tinha de estar em erupção,

para ter um cão. 

(sou senhora dos meus gatos)

vai ser um cabrão 

se não lhe põem a mão.

A cena das mãos é que ficam suadas.

Só eu é que contemplo a morte ao passar por andaimes?

Com qual sentido de impunidade 

vou sair hoje à rua?

Pessoas que usam capas de livros, 

não com o intuito de preservar a condição,

mas com a intenção,

de manter em segredo as suas escolhas literárias.

Fruta 

Não queiras ser melancia de feira,

todos tocam, ninguém compra. 

Ora, 

devia aplicar-se antes a lógica das maçãs. 

Se tem bicho, é porque é boa. 

(Se foi comida, é porque é boa). 

Ainda a desconstruir catolicismos aos 26.

Dejectório

Vejo no vomitado

o meu futuro passado.

Vejo no vomitado

o que ninguém vê.

São folhas de chá,

com odor mais pungente.

Humor escatológico

não é para toda a gente.

Exotérico

Masturbar-me, comer caracóis, 

prazerosas atividades

de dedos enrugados.

O banco de sangue

de São José

está sem pensos rápidos há 2 meses.

Estado da nação, para legislativas,

não estanque.

Hécuba

As tranças que só a minha mãe sabe fazer. 

As tranças que eram laços,

as afetividades que estavam sempre garantidas

e que hoje são a comodidade mais cara. 

As tranças que não vou fazer aos meus filhos, 

porque não vou ter nenhuns.

Ser mulher comprovadamente fértil

e sentir-me um terreno árido.

Acerca dos piropos 

A mulher que não dá troco,

mas confere sempre o seu.

Aqui jaz quem se recusou à prática desportiva,

quem se recusou a exercitar tanto o corpo como a alma. 

Quem não floriu por sucumbir aos próprios mecanismos de defesa. 

(Quem nunca trabalhou para a condessa, mas sentiu-lhe a tristeza)

Asceta

Previsão de ávida recolha de mobiliário, 

prazeroso à vista, na via pública, 

após a conclusão da carta de condução. 

Ou isso, ou comprar uma bicicleta com atrelado.

criaturas de esplanada 

subsistem de cafés,

adoram a madrugada, 

e têm dormentes os pés.

Caixas de correio 

as nossas vidas estão cheias 

de publicidade e com cartas de 

amor ausentes.

A companhia apenas

como combate à ansiedade social

ou ânsia social. 

Vai sozinha, mas acompanhada por si. 

come um croissant na casa de banho, 

enquanto escreve, não consegue. 

Não há tempo para saciar duas fomes em simultâneo.

Não toma banho, mas comparece,

hoje conseguiu.

contra o que parecia não permitir.

Tem como melhor amigo o karma ou o destino.

Ainda não sabe discernir e teme sempre 

não reagir da melhor maneira.

é-se sempre meio louco quando se tem somente a si como companhia.

Ode buzineira 

A minha buzina será a mais triste,

como um eco de baleia doente

vou quitar, para que a todos 

afete mais depressa o coração,

do que a audição.

Amigda-lite

Onde existe mais escarro por m ² em Lisboa é

certamente na entrada das urgências do São José.

Uber-o-cabeleireiro ou o pináculo do comodismo do século XXI

A meteorologia nunca nos pergunta se a temperatura está do nosso agrado.

Ao contrário do cabeleireiro ou do motorista de Uber,

que se revelam sempre irrisoriamente insistentes em inquirir sobre o estado da temperatura na atmosfera controlada. 

Um destes dias atiro-lhes com um 

termómetro de futilidade.

Apetite reticente 

serei eu demente?

ou será que me mente?

E logo neste compasso de vulnerabilidade de pescaria

(em que preciso desesperadamente de me apaixonar por algo, já que não consigo, de momento, que esse algo seja eu)

do lote da monotonia.

Com retribuição de afetos concretos!

Ajuste de expectativas (de uma ex festivaleira) 

Adoro comer sopa, 

e temo morrer sem ir a um 

festival dedicado à dita.

Espremedor de assunção desmedida 

sinto-me repudiada por quem mais quero 

consumir. 

Reflexos do amante egoísta.

Não me consigo exprimir ou 

não o consigo espremer, 

em boa medida? 

Deixo-me cair para dentro de mim 

na dúvida e na incerteza da causa da repulsa.

Férias 

sempre armadilhadas pelo tempo,

excessivamente férteis para conclusões

precipitadas.

O poema na cabeça 

não espera pela inércia da mesa, dispersa.

A minha rua é mais alumiada

que o interior da minha casa.

Chichimeco

A criança que pela mão é levada

confunde-se à distância

com o anão que a leva pela mão.

O meu contador conta

Conta os poemas que não chegaram ao papel,

conta o tempo útil do quotidiano ponderado,

que permanece inalterado, mesmo perante o

excessivo consumo do que é falado, fadado. 

(queiram desculpar o peido da aliteração que rapidamente se converte em seu pseudo trava-línguas)

fadada esta ilusória permanência dos dias, esta espera doentia por um resvale do efémero. 

Conta que me consumo, enquanto se consome ele.

O bidé que não tenho

Uma acumuladora defende-se,

diz ser ecologista.

1 tigela para artista de ½

Quando se é solteira 

perdoa-se o estado febril 

do jovem casal,

consola-nos a chincalheira

recorda-se o cão mortal,

propenso à asneira.

A nostálgica,

ai problemas contemporâneos

e a paciência para a repetição.

Quero antes, outros tempos que não traiam a imaginação. 

Tanto estímulo agrava a repressão.

Vou ao São Luiz

mas não vejo a hora 

de chegar a casa 

e tirar os macacos do nariz. 

Os atletas, das trotinetes.

Dissabores

o luxo do doce embalo da inércia

o não travar interações sociais 

o optar por não trocar tempo 

em prol de futuros favores 

Vem aí a nossa senhora dos dias

a nossa mulher a horas 

vem a minha casa 

limpa-me a semana 

lava-me a alma obstipada 

de quem quer tudo e não tem nada

ou de quem tem tudo e nada quer

de quem quer créditos.

O nismo paralisante

Se a confiança, nos outros, é um atrativo sexual, 

e repreendemos sempre as dos demais, como entregar desprendidamente as nossas? (como nos apaixonarmos)

Como, acreditar no amor, se somos todos iguais?

Era das notificações 

agravam o estado de assoberbamento ,

com o confronto do facilitismo, 

vem o confronto com a veracidade,

do estado vulnerável do ser presente,

não me sustenta o consolo das

trivialidades 

preciso de algo transcendente e

temo que se mantenha sempre assim. 

Fã de anadiplose,

Assonância,

aliteração

e rima!

A chacota da chalota 

Quem sabe o que esconde 

só sei que convém viver antes aquém 

quem sabe ao certo, de quem?

Consuetudinário

E recomeçamos,

a sonhar com férias,

em sonhar mais alto,

a entupir artérias

e surpresos com o sobressalto.

A cada salto, penso no asfalto.

Femeeiro

Passo-a-passo,

trespasso o teu espaço.

É sempre com grande embaraço

que se dá, o malfadado laço.

Charivari

Mama-me na boca, 

intensamente.

Não te deixes cair no sono,

de quem não quer dormir.

Diz-me, em voz rouca, 

quero viver, 

quero sentir,

faz-me vir.

Capciosa

A marinheira urbana

é nas noites de verão

que se sente mais perto do mar,

apesar de viver junto ao rio

e não saber nadar. 

Como me safo da cefaleia?

Matuta na batuta

do cão que a rouba de imaginação

cada vez mais se sente menos sozinha 

no tempo que é só seu. 

Uma comoção com os meios de deslocação

E eu como ando?

Meio morta? Meio torta? 

(situação) 

Isto de ser mulher é uma putice desgraçada 

parte à aventura,

meio desengonçada 

e fica atordoada,

na solidão da multidão.

Já não cabe o pé no sapato

é tudo, tudo, muito chato. 

sobe-lhe a febre,

fica transtornada,

encontra no chão

outra sapatada. 

É uma gaiata obstinada,

não é sustentada.

Quer brincadeira,

não pára por nada.

Portadora de grande altivez,

mas anda ainda no colégio dos porquês.

Não é a senhora quando se senta à mesa,

carrega sempre uma 

grande tristeza. 

Não é a senhora à mesa, 

é um pinguim,

de barbatana tesa.

Irmãos

De filho em filho,

de tempo ao tempo,

lá vai saltando a coroa.

De vassalo em vassalo.

conforme o mais

Instantaneamente

proeminente. 

2018

Nefelibata

Delicio-me no mais 

pequeno dos prazeres, 

engraxar um par de botas. 

As minhas botas, 

mortas de cansaço,

do meu amasso, do meu trato. 

Botas, Mário,

morro sem que os gatos,

ou a folha,

me permitam continuar a escrever. 

Monachopsis

Às vezes, esqueço-me

que tenho as mãos feitas de carne, 

e corto-me. 

Às vezes, o coração

sobe-me à cabeça, 

e esqueço-me de quem sou. 

Amae

Apanhar o Alfa, em Alfarelos,

que naquele dia, em Coimbra 

apercebia-se do quanto se parecia 

ao seu pai.

Ou seria antes influência da avó 

que padecia de tudo 

menos da morte 

de discurso repetitivo 

católico-convencional

sem deixar de se rir das coisas que achava 

não terem assim tanto mal.

Como das calças sarapintadas de lixívia 

que empregava eu à chegada,

assim que lhe digo, desprendidamente, que se assemelham ao céu estrelado à noite, solta uma gargalhada orgulhosa

de quem, por instantes, se sente menina também, 

curiosa e tristonha 

daquela criatividade lhe ter sido há muito roubada.

Joana

Era uma menina de rotina,

era sobrevivência, crucial

até que percebeu o potencial

dos tempos lúdicos, afinal

concertos para encher a alma. 

música para conciliar a perda, 

para fazer uma pausa de tormento. 

para conseguir pensar sem que doa.

Para ouvir a empatia 

criada pelos instrumentos,

para sentir, ao momento, a 

ligação que nunca chega a ser.

e que só o é, quando é música!

Há quem diga que a morte de um canário

é mau auguri, para mim, ver um pombo letárgico

é bem pior.

Um domingo às quatro da tarde 

uma mulher indignada 

por alguém a atravessar 

na estrada,

uma criança 

aos ombros carregada 

deixa saber 

o quanto se sente 

cansada.

2017

Repetição 

Já começo a gostar bastante daquele rapaz, 

que chatice. 

Temo não ter mais para dar,

a estagnação iminente.

puta que pariu. 

Sou boa a desperdiçar dias bonitos de sol, mas 

tenho páginas com cheiro a protector solar. 

A janela frustrada

Janelinha, janelona

Não é o que queres,

é o que se proporciona.

Panegirista condescendente

teimosamente incondicional,

claramente conformado.

Nada pior que um apoiante

resignado.

Fait divers

A necessidade de exaltação da diferença,

A fé depositada (na curiosidade), 

em atributos, 

parecemos pássaros, 

mas somos putos, individualistas

com os pés no chão

a querermos céu.

Qualia

Gosto de tudo, menos de porrada. 

Nem isto posso dizer, porque

até de um bocadinho de 

porrada gosto.

Ou chove, ou faz frio

desgaste tardio 

cigarros e chatices

A empreitada 

reduzida a cinzas 

a vida continua deslavada.

Mastoideu

É mesmo bom visitar 

habitações alheias,

mais gratificante 

que uma visita a um museu.

Anamorfose

Se há algo que temos em 

comum é sermos ambos leves 

e ilusoriamente felizes para outros, 

mesmo que estejamos a 

colapsar por dentro.

A assistir, em tormento,

à destruição.

Pessoas destituídas 

de formação de opinião.

Agarradas a 

um falso consolo 

querendo ainda ter razão

ter capacidade

ter formulação 

ter raciocínio 

quando estão, de facto, 

agarradas a uma 

ilusão de conexão 

em que não se digere, 

em que se rumina, deglute 

para mais tarde regurgitar.

Em que não se pergunta nada, para além do que é o jantar?

Invío

Beija-me, sem saber. 

como passo, 

como faço, 

o que sou, 

onde estou,

onde estás? Quem o faz?

O mistério a quem é que ninguém sabe responder –

Para onde vai o amor, quando vai?